Em 2014 abandonei boa parte do que já fui. A vida perdeu o sentido e depois resignificou-se (palavras novas, significados extintos). Tem sido uma verdadeira travessia. Um tipo de suicídio ao contrário. Só quem perdeu muito sabe o que é dar significado novo à espaços vazios. E deixar outros espantosamente confortáveis, embora amplos e não mais ocupados. Aceitar a existência e conviver com um silêncio interior desconsertante talvez seja um dos maiores desafios humanos. Por um tempo frio, descolado de ambições e saberes. Me aqueci por dentro, como quem toma uma chá de lucidez antes de dormir. Para ser desperto e compreender o mistério de sonhar. Do meu sonhar. Deixando de seguir trilhas alheias, voltei para carpinar meu terreno baldio, de flores exóticas, animais selvagens - experimentando um respeito que jamais tive por este maravilhoso ecossistema. Sei que assim garanto não mais uma vida de sobrevivência, mas a celebração de evoluir enquanto se vive a celebrar. Gratidão.
ANTROPOFAGISTA
Era quase gente. Barba por fazer, olhos profundos imersos em manchas faciais... os músculos atrofiados não conheciam mais o sorriso. Sua pele branca não apreciava mais o Sol da manhã. Cabelos louros e compridos cobriam seus ombros franzinos e seu estômago clamava uma alimentação mais saudável. Tinha dinheiro, mas vivia numa caixa.
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