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Num momento você é uma das coisas mais importantes para alguém. Noutro, você não significa nada. Percebe como existimos e deixamos de existir para os outros e os outros para nós. Alguns evocam a lembrança por perfumes, outros insistimos em permitir que nos causem cicatrizes. Temos o poder de criar novas pessoas dentro de nós, idealizando-as, diminuindo-as ou misturando-as às multidões estigma tizadas de nossos preconceitos, sem sequer às conhecermos como realmente são. Será que temos a capacidade de conhecer o outro como realmente é, ou limitamo-os sempre às nossas semelhanças, ao que nos é mostrado e às dimensões conhecidas? Posso duvidar e até mesmo não sentir a presença do que está fora, mas debaixo das minhas peles é que me faço conhecido a apreendo a travessia reconhecendo transeuntes, existindo sem fim.

reptilianos

Ontem eu ouvi de uma pessoa querida que quando você está em um ninho de cobras tem que agir como uma. Mas fingir algo que você não é, por necessidade de reação, acaba te envenenando, pois aquilo nunca foi a tua essência. Melhor mesmo é andar com galocha, antídoto e facão na mão e, se possível, evitar conviver com serpentes, ouvindo quem já foi picado.

Sou o que sou

Algumas vezes na vida ouvi não ser eu uma pessoa normal. Fui direta e indiretamente rejeitado por ser quem eu era, sou e sempre serei, de gente que me amava - logicamente com algumas condições e se eu andasse na linha. Rejeitado logicamente também por gente desconhecida que dizia não se satisfazer por ver apenas meu rosto na sarjeta, mais ainda por mijar em cima e rir da minha cara (e-mail anôn imo). Saí de casa, saí da igreja, perdi meu pai sem me ajustar completamente com ele, fui repudiado no trabalho, fui expulso de bar, perdi meu melhor amigo em um suicídio, perdi o controle do rumo. E ainda estou vivo. Respirando. Sorrindo, apesar da lágrima fácil e da energia tropeçar.Perdi muito na vida mas ganhei muito mais. Rejeito o carimbo do sofrimento e abandono o de vítima pois reiventei-me tanto! Atraí muito mais amor. Fui ajudado e sou admirado também numa medida que não consigo compreender. E é dessa força que vem o meu sustento e todas as reviravoltas positivas. E não vai ser dessa v...

Jeffolino

Hoje um dos meus melhores amigos faria 36 anos. Há dois anos fizemos uma festa linda aqui em casa, com o tema do Batman - que ele tanto amava. E há dois anos não vejo mais o seu sorriso, não.escuto mais suas piadas sarcàsticas, seus termos  únicos, seu abraço inesquecível. Mas não vou lamentar. Tive a honra de ter a amizade dele por cerca de 17 anos. Ele ensinou me a ser uma pessoa melhor e um amigo melhor. Dói e sempre doerà. Mas o tipo de saudade que sinto tem muito mais amor do que falta. Feliz aniversário, cabeça de grulha. Gratidão por se fazer presente em cada momento, com presença, com palavras e com silêncio. Por rir e chorar comigo, por desfrutar do mundo o quanto pôde. E aos amigos que comigo andam, desejo mesmo que eu tenha a honra de aproveita Los e de vê Los crescendo e desfrutando cada sabor da vida. E que apesar das minhas limitações, seja sempre o amigo de quem não se esqueçam jamais, como o Jeff foi para mim.

sobre a copa

É... não se trata de ser ANTI ou a FAVOR. Paguei minha língua assistindo a um jogo ou outro. E hoje assitirei novamente, do começo ao fim. Disse que não assitiria nenhum... pois estava revoltado, triste, envergonhado. Mas gosto tanto de es tar com meus amigos e eles me convidaram gentilmente a estar presente em três ocasiões de jogos do Brasil... então eu cedi. O primeiro passei fazendo caipirinha, tímido e encabulado por estar presente na sala, no outro dei muita risada e me permiti torcer comendo guloseimas com uns queridos e neste ultimo comi um churrasco gostoso enquanto olhava pra TV. Gritei gol sim. Xinguei jogadores. E voltei para a casa com uma sensação estranha. É que quando estive sozinho nos outros jogos, nem liguei a televisão. Perguntei-me ao voltar para casa se estava sendo demagogo ou hipócrita. Aprendi a não ter vergonha de mudar de opinião como se fosse algo errado. Continuo com o mesmo pesar pela situação do meu país. Não acredito realmente que meu voto valha alguma c...
Em 2014 abandonei boa parte do que já fui. A vida perdeu o sentido e depois resignificou-se (palavras novas, significados extintos). Tem sido uma verdadeira travessia. Um tipo de suicídio ao contrário. Só quem perdeu muito sabe o que é dar significado novo à espaços vazios. E deixar outros espantosamente confortáveis, embora amplos e não mais ocupados. Aceitar a existência e conviver com um silêncio interior desconsertante talvez seja um dos maiores desafios humanos. Por u m tempo frio, descolado de ambições e saberes. Me aqueci por dentro, como quem toma uma chá de lucidez antes de dormir. Para ser desperto e compreender o mistério de sonhar. Do meu sonhar. Deixando de seguir trilhas alheias, voltei para carpinar meu terreno baldio, de flores exóticas, animais selvagens - experimentando um respeito que jamais tive por este maravilhoso ecossistema. Sei que assim garanto não mais uma vida de sobrevivência, mas a celebração de evoluir enquanto se vive a celebrar. Gratidão.
Um salve aos amigos que ligam pela vontade, aparecem sem avisar, encontram-se ao léu, vivem ao Deus dará. Aos que ouvem e aos que dizem sem a presunção de sempre agradar. Aos que são aquilo que são. Cujo lugar do encontro, distâncias, tempos e ponteiros não importam. Gostam diferente, pensam diferente, acrescentam diferença. Tão particularmente parecidos em aspectos íntimos e detalhes infinitos. Aos amigos que apreciam mais presença do que palavras. Aos que reconhecem e apreciam a verdade das imperfeições. Aos que celebram um ao outro e só. Por suas histórias desinteressadas e indispensáveis. Por saberem desnudar a dor sem vergonha e por vestirem comigo altas gargalhadas com orgulho. Por saberem viver a simplicidade da existência e a densidade das certezas efêmeras, sorrio para vocês mesmo quando não saibam. Mas o sabem, estou certo. Aos que me presenteiam de tal forma dedico amor, respeito e desapego. Sejam maiores, salvem o mundo. E voltem quando quiserem, para o nosso lug...

O COMUM DAS DIFERENÇAS

Sim, dá para dizer o que você quiser. Mas não em qualquer lugar e não mais para qualquer pessoa.  Afinal, é o seu modo de ver o mundo. Certas opiniões, guarde para si mesmo. Ou procure, ao menos, escutar pessoas quem pensam diferente de você. É importante entendermos que a estética e o que consideramos valores e crenças são um conjunto de modelos históricos definidos por contextos éticos e sócio culturais. Basta lembrar das imagens revolucionárias para a humanidade em determinadas épocas: mulheres queimando sutiãs, negros sentados ao lado de brancos no mesmo ônibus -  assim fica mais fácil compreender os códigos que regem a sociedade e seu modo de vida, a noção de que o certo e o errado mudam de lugar. E, sim, considero que os critérios de penalização do Estado sejam regidos pela definição de Cidadania e num diálogo sempre democrático.  Mas há aspectos fundamentais que são inegociáveis: Direitos de ir e vir livremente, constituir família, usufruir os mesmos diretos e de...

DO LADO DE DENTRO

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O mistério revolta e atrai - é a lei da vaidade. Já a liberdade pode ser leviana, invasiva.  Seja dada ou concedida, prefiro só o que me pertence.  Passei do tempo de usurpar acessos.  Pois neles encontrei cofres e túmulos o tempo desgastou lutos e valores que talvez nem fossem meus.  Ganhei do vazio o meu recomeço.  Recebi novas chaves que abrem e fecham.  Agora do lado de dentro. Ainda prefiro gavetas vazias do que portas fechadas.

Comer suposições

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Sacia no sabor do momento. Sou do tipo que esquece conversas para evitar relê-las e, no afã de vãs suposições, retê-las.  Tem maturidade que demora, mas chega. E tem fruta desfrutada ainda azeda.  É fome que não alimenta.

A CHAVE

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Não consigo entender muita coisa.  E é preferível MESMO não ter todo o conhecimento.  Quero ainda ser capaz de me surpreender. Mesmo tímida e às vezes cansada,  porque duvida se espera ou caminha adiante,  essa vida me ensina que estou aqui é pra desaprender. A gente nunca sabe sentir.  A gente só sente.  Quando encontra a alma de alguém e ela te olha de volta,  perde todo o controle. Por isso há tanta gente fechada para o amor. "Quem diz que me entende, nunca quis saber".  Amar nunca precisou de explicação.

SANTOS NA SELVA

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Alguém me disse que um pássaro doce e gentil cantando suave com o bico voraz também despedaça minhocas. É possível gozar sangue. É possível chorar sal e a melhor carne é a que foi amaciada. A caça camufla os bichos com a noite. E na luz natural do dia também planejam açoites e esperam, pacientemente à espreita porque têm fome. Não existem santos na selva e alguns venenos não matam, mas têm o gosto ruim. Minha'lma neste instante gorjeia. É uma satisfação estranha de quem apenas engoliu o abate sem saber direito o porquê.  26/09/2008

RASCUNHOS ARRISCADOS

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A loucura já é repleta de eventos e tamanhos significados.  Mas talvez não seja suficiente para minhas realidades. Não sei mais se é melhor eu ser encontrado. Como conectar-me, já aprendi. Agora me diz como desliga essa porra. É um senso de querer viver, numa base que nunca tive um misto de tristeza com gratidão C A T A R S E. Que saia tudo, mesmo. E que fique bem leve.  E vazio o suficiente para caber somente eu. É tudo o que preciso no momento. Se eu pudesse ver dos teus olhos veria os olhos meus e, dentro deles, os olhos teus. Um descaminho basta para tudo ficar denso e complexo. Um descarinho basta para tudo ficar desbotado e simples. O poeta espera sempre pelo melhor.  No fundo, a melancolia é assim. Embutida de uma raiva ainda egoísta, evaporada pelas letras ferventes, escapulidas dessas torrentes de uma emoção tão necessária de se ausentar. Você não vê, mas está lá. Existe sim uma rede invisível e prática que muitas vezes nos sustenta. Um c...

O FATO DE NÃO SER PAI

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Sala de espera. Uma criança chora. Os pais não tem paciência e revezam o bebê de colo em colo enquanto ele faz o que quer. Ao lado, dois pré adolescentes não param de falar enquanto revezam o tempo entre disputas de jogos de celular e bater a mão na bolinha de plástico da piscina, evitando a todo custo derrubar no chão como se não existissem pessoas ao lado. Eu saio do lugar e procuro um banco distante. Como estou velho, penso. Que falta de educação, penso novamente. Cheguei no horário e deixaram uma paciente atrasada 15 minutos passar na minha frente. Que falta de respeito. Mas a menina da recepção se confundiu. Como sou intransigente, penso novamente. Mas hoje é sexta feira e eu só queria ver meu amigo se apresentar numa linda apresentação de dança contemporânea que começa daqui a pouco. E continuo esperando. As crianças já se foram. Celebro o fato de não ser pai. Na Tv, ouço a notícia: Aumentaram os partos na cidades de SP. Suspiro fundo. O fato é que ninguém gosta de fila.

Linhas de expressão

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Um rosto molda-se vulto, ri-se caricatura.  um rosto em sombra  outro rosto em luz. Rostos em sulcos, rostos invólucros. Faces cheias de expressão são pura apatia quando escuridão.  Ressalta, esconde, finge duas caras. Quem é o rosto que te encara?  Lembra-se da imagem que reflete ou da que sabe.  Sabe-se?  Um rosto sempre é o que o tempo quer.

DOS PEDIDOS QUE NÃO FIZ

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De tanto ser deslocado, aprendi a transitar.  Quando esperava o ponteiro  chegar no minuto seguinte,  anoitecia. E o luar foi a única companhia.  Quando muito, uma estrela cadente. E eu não sabia fazer o pedido.  E ela passava rápido demais, perdia.  Esperava a seguinte, mas não vinha.  Até que parei de me surpreender! Depois que as horas pararam, eu esquecia o que via, até parava de procurar, mesmo à luz do dia.  Era tudo a mesma coisa, sempre a mesma ladainha,  só mudava a cor do céu enquanto eu me desbotava,  me esvaziava e me preenchia,   pelo menos de ar,  pra continuar existindo. E assim me deslocar  até o instante se tornar a razão  mais importante de transitar.  Quem sabe um dia nossos  tempos se encontrem.  13/07/17 00h14

DO LIVRO DAS REVELAÇÕES

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São os detalhes que nos tornam únicos Das mínimas coisas a memória é feita a gente é muito mais que pele. E nos pequenos gestos vasculhamos nossos universos em busca do mesmo, do velho... amor. A busca inconsciente e ávida por coisas pouco notadas não mais pelo senso viciado de novidades, ainda sem a tênue percepção de que o extraordinário sempre esteve lá. Perto do fim morrem sensações ilusórias do que temos pelos símbolos que vestimos quando nos permitimos despir coisas comuns medos expostos, sensações antigas e guardadas pelo ledo engano de que neste mundo elas nunca mais serviriam, consumidas pelo tempo. Esta mania humana de por fim nas coisas como se elas terminassem - o que pretensiosamente chamamos morte, como se tudo encerrasse ou desaparecesse. Mas os detalhes revelam tudo. É nesta hora que prevalece o senso comum, a sensação mediana, medíocre, a semi-vida. O Purgatório revela o que ninguém quer.

saudade 171

E quando a saudade nos assaltar? Levantaremos os braços, entregaremos tudo, arriscaremos a vida arrancando-nos a realidade? Morreremos por outras mãos ou viveremos livres e blindados?

Razões do corpo

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Meu corpo não comporta o pouco Quer tudo intenso Ficou por tanto tempo à flor da pele Elevou-se em doses Que o carinho se tornou dormente A pele grossa e o nervo que demora a enrijecer pois não descansa no afã de ser sempre pleno até doer o escroto Revolve em fantasias Pra alimentar desejos e drena tudo explode ao ponto de se esvair e me melar inteiro meu prazer me abandona Invade a culpa anônima O vazio de não existir de verdade O tempo escorre em claro e escuro O cheiro é só do que sai dos próprios sexos Deve ser por isso que nunca se encontra Evita o odor alheio O toque em lugares indesejados Apaga-se o mistério De percorrer um corpo inexplorado Sem paciência em descobrir o outro E o membro flácido ejacula precoce e tímido Quem é o outro pra desvendar meu corpo? Quem sabe da exata intensidade da pressão nos meus mamilos sou eu! Aperto meu pau de um jeito que nenhuma mão irá apertar Enfio os dedos de um jeito que só a...
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A mentira finge que eu não sei. E eu pergunto como se nada soubesse. A resposta vem com toda a convicção.  E eu esmiúço o assunto  em pequenas novas perguntas  adjacentes,  para observar o fio vestindo tecido.  É impressionante como tem gente  que se veste sempre do mesmo jeito. A moda muda, e continuamos ridículos se insistimos em cobrir por causa  de nossas pequenas vergonhas.  A beleza é sempre tão fingida!
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ABANDONO Não fujo mais. Se é feio ou bonito, se atrai e assusta, Não nego: meu gozo ainda dói. Tenho medos que são virgens mas agora insisto na dignidade destas vergonhas. Não quero prazeres dormentes. Que doam Que esfolem Que sangrem Que me matem  estes prazeres ocultos. Levem tudo. E me deixem, finalmente, nú. Nascerei, então,  com a consciência livre de toda decência impura.
Queria ter o poder de arrancar a dor do coração de muita gente, doar felicidade, satisfazer um sonho, conceder o desejo... mas sei que meu olhar é parcial, minha compreensão é curta e meu cuidado temporal. Dentro de tantas limitações, confio à vida e ao divino coisas que não poderia jamais dar. E que eu tenha a capacidade de ser presença, de iluminar sem precisar carregar fardos e dores desnecessárias, de simplificar o amor em atos, diluindo culpas e medos, num universo com propósitos muito mais elevados.

TRAVA LÍNGUA

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Já disse palavras de todos os tipos quem sabe tudo o que poderia ter sido dito as palavras exatas, as ditas prolixas as rasgasdas feito lixas fugindo como se não quisessem dizer prendidas por muito tempo saíram e só nas sutilezas de todas as certezas apreendidas vomitei contradições inverti rotas como quem arrota   sílabas curtas e grossas haviam também palavras lindas lisas, lânguidas grunhidos amorosos insossos distoantes da consoância de pensamentos verborrágicos assintomáticos, hemorrágicos, a psicossomatizar tatuagens escondidas meus ossos foram talhados de alfabeto antigo inaudito mas de significado profundo ora dizia mais vogais do que qualquer outra letra sabe o som que a gente finge que entende? é o ouvido restrito de dentro surdo abafado   graves intenções marcando ritmo sinto ao me lembrar   de uma voz cheia de efeitos e pouco sentido depois disso vieram as ...

O silêncio que liberta palavras

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Recolhi muitas palavras.  E o silêncio invadiu-me para roubà -las .  Ouço desde então os vazamentos e os rangidos agredidos.  Os aparelhos continuam funcionando  mesmo quando não são vistos.  E  se desgastam.  Foi lá que o sussurro do vento  ficou parecido com a minha respiração.  Perturbou-me estar vivo desse jeito!   Pois o equilíbrio todo desorientando estava surdo.   Não me ouvia. Palavras guardadas num lugar onde não lembrava.   Pareceu me bem ficar assim : como terra sem do no,  onde o olhar não começa nem termina,  mas ninguém se apropria quando nela se encontra.   É o tipo de lugar onde a maioria das pessoas vai só de passagem. Quase ninguém tem coragem de ser morada de si mesmo.  Só me sabe o recomeço dessas cercas que não existem mais.  E a não existência pode ser assustadora.  Mas logo vem a serenidade.   Interessante como a ausência torna o futuro lento. ...

Momento presente

Um gesto. Um olhar. Um toque.A simplicidade O sorriso gentil.A companhia. Parceria. História. Toda simplicidade. O jeito de ser. Aprendizados. Pequenos carinhos. Grandes cuidados. Olhar de verdade. Ouvir de verdade. Saber de verdade. A diferença no mundo: querer ser. Evidências que valem todo o momento presente.

ESBOÇOS

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Não sei como se veste, nem quais são seus amigos. Qual é a tua cor e o que te descolore também. Mas eu provo do gosto de teu silêncio, pois bebemos de fontes parecidas.  E em algum rosto te reconhecerei por aí, mesmo que já tenha te visto. Quando te achar,  darei-me o direito de me perder. Agora já sei como voltar para mim.

CONVERSO COM OS BICHOS

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Natureza selvagem,  tempo orgânico regido pela chuva;  aqui eu converso com os bichos.  Todos, principalmente os de dentro.  Há de se desenvolver uma linguagem própria,  compreender territórios,  respeitar o ecossistema para a preservação  das espécies que em mim habitam.

FILHO DA MÃE

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Minhas lembranças de filho da mãe não são muitas. De quando eu caí e bati a cabeça e ela veio apertar uma faca com sal no galo que se formara, do cafezinho feito por suas mãos para entregar ao meu pai, numa obra acompanhada por ele exatamente do lado da casa onde morávamos, dos presentinhos manuais que eu fazia na escola e entregava para minha avó com certa frustração, e do inevitável dia da fuga,  após uma briga dela com meu pai e muitos objetos jogados no chão- e eu tinha lá pelos meus quatro anos - migalhas nervosas do tipo ' a mamãe vai embora mas ama vocês' . Cresci aprendendo que era errado procurá-la ou falar seu nome. Alice tinha nos abandonado, traído meu pai com o amigo, sumido do mapa. Até de macumba contra o meu pai e a então nova namorada, foi acusada. Cresci assim, meio sem colo, sem ventre, sem cordão umbilical. Passei boa parte da vida tentando me reconectar. Com o espiritual, reconheci por um tempo Maria como a mãe universal, mas, ainda na adolescência, parti...

DESPEDAÇOS

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A perda chega a desconfigurar alguém. Dessa massa disforme, desse pedaço que falta e flutua, dessa ausência que nada preenche, dessa sombra tamanha onde é difícil acostumar o olhar sem luar, da matéria escura, do pó das estrelas, do céu que ainda se vê e não existe mais.... Ainda será Universo. A forma que encolhe para expandir. A Vida na minúscula partícula. A volta. O início que era - já foi um fi m. A dor de morrer talvez seja a mesma de nascer. E o que há entre estas... Ah, o que há... entre a dor de mudar de forma, de encaixar nos novos espaços, tornar presente e expandir, sobejar, gerar constelações que talvez nem vejamos frutificar no céu, lembrança do brilho do que um dia já fomos; será vida para os olhos de quem vê e se sente vazio, ofuscado por sentir-se perdido. Somos feitos dos mesmos vazios para preenchermos o espaço do todo. Mas tudo é mais além, não cabe em nós. Espaço de chão. O espaço é um pedaço de chão....